Metodologia · versão 1.1

Como o Laudax avalia o risco psicossocial

Usamos instrumentos científicos validados e os pontos de corte da literatura — não inventamos critérios. Tudo o que o sistema calcula está descrito aqui, com as fontes, e fica registrado em cada laudo para auditoria.

Em resumo

Os trabalhadores respondem um questionário validado, de forma anônima. O sistema calcula, para cada tema avaliado (dimensão), uma nota de 1 a 5 e a classifica em três faixas — favorável (verde), intermediário (amarelo) e desfavorável (vermelho). O responsável técnico interpreta os resultados à luz do trabalho real, escreve o parecer e assina. O cálculo é do sistema; a conclusão é do profissional.

1. Os instrumentos

COPSOQ II-Br (Copenhagen Psychosocial Questionnaire, Versão Média) — instrumento internacional para fatores psicossociais, validado para o português do Brasil. Cobre a organização do trabalho (demandas, controle, apoio, recompensas, relações, papel, mudança) e indicadores de saúde e bem-estar. São 76 perguntas distribuídas em 29 dimensões.

HSE Management Standards (Health and Safety Executive, Reino Unido) — ferramenta de gestão com 7 domínios. O HSE não publica pontos de corte de risco oficiais; por isso, quando ele é usado, a classificação por faixa de risco é uma adaptação metodológica declarada (veja a seção 10).

A escolha do instrumento é do responsável técnico, conforme o porte e a maturidade da empresa.

2. Como medimos cada dimensão

Cada dimensão é um conjunto de perguntas respondidas em escala de 1 a 5. Perguntas escritas no sentido inverso são revertidasno cálculo (1↔5, 2↔4, o 3 fica), para que "maior nota" signifique sempre a mesma coisa. No COPSOQ são as perguntas Q40, Q41, Q45 — as que perguntam por ocultação de informação dentro de escalas que medem confiança. A nota da dimensão é a média das respostas, de 1 a 5.

Cada pergunta é respondida nas opções que o seu próprio enunciado pede: uma pergunta de satisfação não é respondida em escala de concordância. O COPSOQ usa 5 famílias de opções, e o questionário avisa o respondente sempre que a família muda.

FamíliaOpções, de 1 a 5
FrequênciaNunca · Raramente · Às vezes · Frequentemente · Sempre
Grau de intensidadeNada ou quase nada · Um pouco · Moderadamente · Muito · Extremamente
SatisfaçãoMuito insatisfeito · Insatisfeito · Nem satisfeito nem insatisfeito · Satisfeito · Muito satisfeito
Estado de saúdeDeficitária · Razoável · Boa · Muito boa · Excelente
ConcordânciaDiscordo totalmente · Discordo · Neutro · Concordo · Concordo totalmente

3. Como classificamos — os pontos de corte

A média de cada dimensão é dividida em três faixas, com os cortes consagrados no uso português e brasileiro do COPSOQ:

FaixaMédia 1–5Risco
Favorável (verde)1,00 – 2,33baixo
Intermediário (amarelo)2,333,66médio
Desfavorável (vermelho)3,66 – 5,00alto

Os cortes (2,33 e 3,66) são prática estabelecida da literatura — não dependem de amostra normativa e não foram definidos pelo Laudax. Cada laudo registra a versão da tabela de cortes aplicada.

A faixa desfavorável vira risco alto nas dimensões de desfecho clínico reconhecido (exigências emocionais, insegurança no trabalho, burnout, comportamentos ofensivos) e risco médio nas demais.

4. Prevalência — quantas pessoas, não só a média

A média de um grupo pode ser confortável e esconder um subgrupo em sofrimento. Por isso, além da média, o laudo mostra a proporção de trabalhadores em cada faixa — quantas pessoas, em porcentagem, caem no verde, no amarelo e no vermelho de cada dimensão. É contagem de pessoas, não de respostas.

5. Tradução para a linguagem do GRO — adaptação declarada

A NR-1 organiza o gerenciamento de riscos em Probabilidade × Severidade → Prioridade. O COPSOQ não produz essas grandezas: produz médias e distribuições. A conversão abaixo é uma adaptação metodológica declarada, replicada de prática consolidada em laudos aceitos no mercado brasileiro, e nunca é apresentada como medida direta do instrumento.

A Probabilidade deriva da prevalência desfavorável do fator:

Trabalhadores em exposição desfavorávelProbabilidade
acima de 70%5Frequente
51% a 70%4Provável
31% a 51%3Ocasional
15% a 31%2Remoto
0% a 15%1Improvável

A Severidade é a gravidade do dano à saúde que o fator produz — atributo intrínseco do fator, não da população medida. Ela vem da tabela severidade-base (laudax-severidade-base-v1), que atribui a cada dimensão de exposição a gravidade do desfecho associado na literatura; a severidade do fator é a maior entre as suas dimensões, porque em saúde a exposição mais grave manda. Dimensões de desfecho (burnout, sintomas depressivos, satisfação) e de recurso individual não entram: elas medem impacto e modulação, não a gravidade do dano.

Esta é uma adaptação declarada e é o ponto em que o método do Laudax diverge do sistema de origem, que derivava a severidade da contagem de dimensões acima dos cortes. Aquela regra media a extensão da exposição, não a gravidade do dano: fatores compostos por muitas dimensões apareciam mais graves que fatores compostos por poucas, e um fator de dimensão única — como exposição a comportamentos ofensivos, cujo desfecho inclui transtorno de estresse pós-traumático — não conseguia ser classificado como grave.

O cruzamento de probabilidade e severidade em matriz produz a Prioridade de ação. Fatores com prevalência abaixo de 15% não são reportados como exigindo ação.

6. Fatores de risco e danos à saúde

Cada Fator de Risco Psicossocial da taxonomia do Ministério do Trabalho é composto por um conjunto de dimensões do instrumento, com o dano à saúde associado. Este é o mapa completo aplicado hoje (coopersaude-gro-v1):

FatorDimensões que o compõemDano associado
Assédio de qualquer natureza no trabalhoApoio social de superiores, Comportamentos ofensivos, Confiança horizontal, Confiança vertical, Justiça e respeito, Qualidade da liderança, Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Baixa clareza de papel/funçãoApoio social de superiores, Auto-eficácia, Influência no trabalho, Insegurança no trabalho, Previsibilidade, Satisfação no trabalho, Significado do trabalho, Clareza do papelTranstorno mental
Baixa demanda no trabalho (subcarga)Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Baixa justiça organizacionalExigências emocionais, Influência no trabalho, Insegurança no trabalho, Justiça e respeito, PrevisibilidadeTranstorno mental
Baixas recompensas e reconhecimentoCompromisso com o local de trabalho, Insegurança no trabalho, Possibilidades de desenvolvimento, Recompensas, Satisfação no trabalho, Clareza do papelTranstorno mental
Baixo controle no trabalho/falta de autonomiaPossibilidades de desenvolvimento, Previsibilidade, Satisfação no trabalho, Significado do trabalhoTranstorno mental; DORT
Eventos violentos ou traumáticosComportamentos ofensivos, Conflitos de papel, Insegurança no trabalho, Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Excesso de demanda no trabalho (sobrecarga)Exigências quantitativas, Ritmo de trabalho, Satisfação no trabalhoTranstorno mental; DORT
Falta de suporte/apoio no trabalhoConflitos de papel, Qualidade da liderança, Recompensas, Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Maus relacionamentos no local de trabalhoApoio social de colegas, Apoio social de superiores, Comportamentos ofensivos, Comunidade social no trabalho, Confiança horizontal, Confiança vertical, Conflitos de papel, Exigências emocionais, Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Má gestão de mudanças organizacionaisExigências quantitativas, Justiça e respeito, Previsibilidade, Qualidade da liderança, Recompensas, Ritmo de trabalho, Satisfação no trabalho, Significado do trabalho, Clareza do papelTranstorno mental; DORT
Trabalho em condições de difícil comunicaçãoApoio social de superiores, Comunidade social no trabalho, Confiança horizontal, Conflitos de papel, Exigências emocionais, Influência no trabalho, Previsibilidade, Satisfação no trabalhoTranstorno mental
Trabalho remoto e isoladoApoio social de colegas, Auto-eficáciaTranstorno mental; Fadiga

7. Grupos, tamanho mínimo e plano de ação

Os grupos de análise são definidos pelo responsável técnico antes da coleta abrir, com o critério de homogeneidade registrado, e ficam congelados — não é possível reagrupar depois de ver os resultados. Um grupo só recebe resultado separado a partir de 10 respondentes (o responsável técnico pode exigir mais; o piso absoluto é 5, por anonimato). Abaixo disso, os respondentes entram em "Demais grupos", com a composição declarada — nunca são descartados nem omitidos em silêncio.

As medidas de controle do laudo são escritas ou revisadas pelo responsável técnico, com responsável, prazo e origem declarada, e só entram no documento depois de aprovadas por ele. Um grupo sinalizado como exigindo plano de ação não permite emitir o laudo sem ao menos uma medida aprovada.

8. O papel do responsável técnico

O sistema calcula e classifica; a análise é do profissional. O responsável técnico (RT) escreve o parecer de cada grupo à luz do trabalho real — a organização do setor, as condições concretas — e é o seu parecer que sai impresso e assina o laudo. Número sem o contexto do trabalho não sustenta uma fiscalização; por isso a interpretação é sempre humana.

9. Anonimato e LGPD

Nenhum dado pessoal é coletado na resposta — sem nome, sem CPF. Grupos com poucos respondentes não são exibidos isoladamente: são agregados em "Demais grupos", com a composição declarada, nunca suprimidos em silêncio, para impedir a reidentificação, em conformidade com a LGPD. O mínimo por grupo é decisão metodológica do RT, com piso absoluto de 5 respondentes.

10. Declaração de adaptação metodológica

A ferramenta oficial do HSE não publica pontos de corte, percentis ou classificação de risco — apresenta médias e comparação histórica da própria organização. Quando o HSE é usado, a classificação por faixas e o mapeamento para risco da NR-1 são adaptação metodológica do aplicador para o contexto brasileiro, declarada na seção de metodologia do laudo. Os resultados não devem ser apresentados como classificação oficial do HSE Management Standards.

11. O que fazer com o resultado

O laudo aponta onde está o risco e em que grau. Ele alimenta o inventário de risco do PGR (NR-1). Dimensões em risco alto demandam medidas de controle com responsável e prazo; a boa prática é tratar risco elevado em até 90 dias. O laudo é a base técnica para essas medidas — não o fim do processo, mas o começo do plano de ação.

12. Conformidade e responsabilidade

A divisão é clara: o sistema é responsável pelo cálculo padronizado e rastreável (médias, faixas, supressão estatística); o responsável técnico é responsável pela interpretação, pelas conclusões e pela assinatura. O laudo registra a versão do instrumento, da tabela de cortes, das regras de mapeamento e desta metodologia — e o selo de verificação de cada laudo aponta para a metodologia vigente na data de emissão. Esse encadeamento (instrumento versionado → cálculo declarado → parecer assinado) é o que sustenta o documento em auditoria e perícia.

Toda adaptação metodológica (como a classificação do HSE) é declarada como tal no laudo, com a fonte e a versão — nunca apresentada como corte oficial do instrumento.

13. Evolução da metodologia

Esta página descreve o que o produto entrega hoje — não o que pretendemos entregar. Quando o método muda de forma que altere resultados, a versão sobe aqui e fica registrada em cada laudo novo; laudos antigos continuam apontando para a versão sob a qual foram emitidos.

Em revisão para a próxima versão: a derivação da Severidade (hoje por contagem de dimensões acima do corte, o que mistura extensão com gravidade — a alternativa em estudo é derivá-la da natureza do dano) e a ratificação formal das famílias de opções de resposta pela ergonomista responsável pelo método.

Referências

Metodologia versão 1.1 · As versões aplicadas a cada laudo (instrumento, cortes, mapeamento) ficam registradas no próprio documento. Um produto do estúdio Rojão.